Marcação a mercado: por que o saldo da renda fixa oscila e quando isso afeta o seu dinheiro

Marcação a mercado é a atualização diária do preço de um título ou cota pelo valor que o mercado pagaria por ele hoje, e não pela taxa contratada na compra.
Saber o que é marcação a mercado explica uma surpresa comum de quem começa na renda fixa: abrir o extrato e ver o saldo de um título do Tesouro menor do que o valor aplicado.
A prática deixou de ser exclusiva de fundos e do Tesouro Direto em janeiro de 2023. Desde então, a regra da ANBIMA obriga bancos e corretoras a mostrar o preço a mercado de debêntures, CRIs, CRAs e títulos públicos negociados fora do Tesouro Direto como valor principal no extrato.
A oscilação só vira ganho ou perda para quem vende antes do vencimento. Segundo a ANBIMA, quem mantém o título até o fim recebe exatamente a remuneração combinada na compra, e o preço a mercado converge para o da curva à medida que a data final se aproxima.
Este guia explica como o preço é calculado, quais investimentos sofrem marcação a mercado, a diferença para a marcação na curva, o que determina o tamanho da oscilação e em que situações esse tipo de título não combina com o objetivo do investidor.
O que é marcação a mercado?
Marcação a mercado é a atualização diária do preço unitário de um título de renda fixa ou da cota de um fundo, conforme as taxas de juros e as condições de oferta e demanda do dia. O resultado mostra quanto o investimento valeria se fosse vendido naquele momento.
A definição da ANBIMA destaca que a atualização pode ser para cima ou para baixo e que ela é relevante para quem deseja resgatar antes do vencimento. Para quem leva o título até o fim, a remuneração contratada não muda.
A lógica é a de qualquer bem com mercado de revenda. Um título que paga 13% ao ano perde atratividade se novos títulos passarem a pagar 15%, e só encontra comprador com desconto. Se as taxas caem para 11%, o mesmo título vale mais, porque paga acima do que o mercado oferece.
No Tesouro Direto, esse mecanismo sempre existiu. As regras do Tesouro Direto garantem liquidez diária, mas o resgate antecipado é feito pelo preço de mercado do dia, que pode ser maior ou menor do que o valor aplicado, corrigido pela taxa da compra.
Por que o preço do título cai quando os juros sobem?
O preço do título cai quando os juros sobem, porque o valor que ele vai pagar no vencimento é fixo, e esse valor é trazido a valor presente pela taxa atual do mercado. Quanto maior a taxa usada no desconto, menor o preço de hoje.
O exemplo abaixo é hipotético e usa um título prefixado que paga R$ 1.000 no vencimento, daqui a cinco anos, comprado a 13% ao ano. O preço de hoje é o valor final dividido por (1 + taxa) elevado ao número de anos.
| Taxa de mercado no dia seguinte à compra | Preço do título | Variação sobre o preço de compra |
|---|---|---|
| 13% ao ano (sem mudança). | R$ 542,76 | 0% |
| 15% ao ano (juros sobem). | R$ 497,18 | queda de 8,4% |
| 11% ao ano (juros caem). | R$ 593,45 | alta de 9,3% |
Nos três cenários, quem mantém o título até o vencimento recebe R$ 1.000. A diferença aparece só para quem precisa vender antes, e é por isso que decisões do Copom, como a nova taxa Selic, mexem de imediato com o saldo de títulos prefixados e atrelados à inflação.
Quais investimentos sofrem marcação a mercado?
Sofrem marcação a mercado os títulos públicos prefixados e atrelados ao IPCA, o Tesouro Selic em menor grau, as debêntures, os CRIs e CRAs e as cotas de fundos de investimento, inclusive de renda fixa e previdência. CDBs, LCIs e LCAs podem ser exibidos pela curva, mas a venda antecipada segue o preço do momento.
| Investimento | Como aparece no extrato | Sensibilidade à marcação a mercado |
|---|---|---|
| Tesouro Prefixado | Preço a mercado. | Alta, cresce com o prazo. |
| Tesouro IPCA+ | Preço a mercado. | Alta, cresce com o prazo. |
| Tesouro Selic | Preço a mercado. | Baixa. |
| Tesouro Reserva | Sem marcação a mercado. | Nenhuma. |
| Debêntures, CRI e CRA | Preço a mercado, pela regra da ANBIMA. | Média a alta, conforme prazo, indexador e emissor. |
| Títulos públicos comprados fora do Tesouro Direto | Preço a mercado, pela regra da ANBIMA. | Conforme o tipo do título. |
| Fundos de investimento | Cota calculada com os ativos a mercado. | Conforme a carteira do fundo. |
| CDB, LCI e LCA | Na curva. | Aparece só na venda antes do vencimento. |
Tesouro Prefixado e Tesouro IPCA+. São os mais sensíveis entre os títulos públicos, porque toda ou parte da remuneração é fixada na compra. Quanto mais distante o vencimento, maior a oscilação diante da mesma mudança nos juros.
Tesouro Selic e Tesouro Reserva. O Tesouro Selic acompanha a taxa básica e varia pouco, mas pode ter pequenas oscilações. Já o Tesouro Reserva, lançado em maio de 2026, não tem marcação a mercado, segundo o anúncio do Ministério da Fazenda, e foi desenhado para resgate a qualquer hora.
Debêntures, CRIs e CRAs. Desde 2 de janeiro de 2023, a regra da ANBIMA exige que esses títulos apareçam a preço de mercado. Além dos juros, o preço reflete a percepção de risco do emissor. As debêntures incentivadas, de prazo longo, costumam ter as maiores oscilações do grupo.
Fundos de investimento. A cota de um fundo é o patrimônio da classe dividido pelo número de cotas, como define o art. 14 da Resolução CVM 175, e os ativos da carteira entram a preço de mercado. Por isso, a cota de um fundo de renda fixa pode cair em dias de alta dos juros, mesmo sem nenhum calote.
Isso vale para fundos de renda fixa, fundos multimercado, fundos de previdência e ETFs de renda fixa. A ANBIMA registra que fundos e carteiras administradas já marcavam seus ativos a mercado antes da regra de 2023, que estendeu a prática aos títulos em nome do investidor.
CDB, LCI e LCA. A mesma notícia da ANBIMA informa que a regra não se aplica a títulos de emissão bancária, que podem continuar marcados na curva. Em caso de venda antes do vencimento, porém, valem as condições do mercado naquele dia, como explica o relatório da XP sobre a nova regra.
Na prática, um CDB prefixado ou atrelado ao IPCA vendido antes do prazo pode sair com deságio se os juros subirem, mesmo que o extrato mostre o valor na curva. Já LCI e LCA costumam ter carência e baixa liquidez antes do vencimento, o que torna a saída antecipada menos previsível.
Qual a diferença entre marcação a mercado e marcação na curva?
A marcação a mercado mostra quanto o título vale hoje se for vendido; a marcação na curva mostra quanto ele vale considerando só a taxa contratada na compra, como se fosse levado até o vencimento. As duas chegam ao mesmo valor na data final.
| Critério | Marcação a mercado | Marcação na curva |
|---|---|---|
| Taxa usada no cálculo. | Taxa negociada no mercado no dia. | Taxa contratada na compra. |
| Comportamento do saldo. | Sobe e desce com os juros e o risco do emissor. | Cresce todo dia pela taxa contratada, sem quedas. |
| O que informa. | Valor de venda antes do vencimento. | Valor se o título for levado até o fim. |
| Onde é o padrão. | Tesouro Direto, fundos, debêntures, CRI, CRA e títulos públicos fora do TD. | CDB, LCI e LCA. |
| No vencimento. | Converge para o valor contratado. | Igual ao valor contratado. |
A regra da ANBIMA permite mostrar os dois valores ao mesmo tempo, desde que o preço a mercado seja o principal. Só o investidor qualificado, com mais de R$ 1 milhão em aplicações financeiras, pode pedir à instituição para ver apenas o valor na curva.
O relatório da XP lembra que a curva nunca foi o preço de venda. Antes da regra, o investidor via um saldo estável na tela e só descobria o deságio ao pedir o resgate; agora a informação aparece antes da decisão.
Quando a marcação a mercado afeta o seu dinheiro?
A marcação a mercado afeta o seu dinheiro em duas situações: quando você vende um título antes do vencimento e quando resgata cotas de um fundo, porque a cota já incorpora o preço de mercado dos ativos. Fora disso, a oscilação é apenas uma fotografia do valor de saída naquele dia.
O imposto acompanha o valor efetivamente recebido. A marcação a mercado não altera as regras de IR e IOF da renda fixa, como destaca o relatório da XP: o tributo incide sobre o rendimento na venda ou no vencimento, e não sobre as variações diárias do extrato.
Nos fundos, o efeito é contínuo. O cotista que entra ou sai de um fundo de renda fixa no dia de uma alta forte dos juros compra ou vende cotas já ajustadas, e o resultado depende da data de conversão prevista no regulamento, não da data do pedido.
Dá para ganhar com a marcação a mercado?
Sim. Quando os juros caem depois da compra, o título passa a valer mais do que pela curva, e vender antes do vencimento permite embolsar esse ganho. No exemplo hipotético acima, uma queda da taxa de 13% para 11% eleva o preço em 9,3% de um dia para o outro.
A estratégia tem dois riscos. O primeiro é que os juros podem subir em vez de cair, e o ganho vira perda. O segundo é o reinvestimento: o dinheiro da venda terá de ser aplicado a taxas menores, justamente porque os juros caíram.
O que determina o tamanho da oscilação?
O tamanho da oscilação depende de quatro fatores: o prazo até o vencimento, o tipo de indexador, o risco de crédito do emissor e a liquidez do título no mercado secundário. Quanto mais longo o prazo e mais fixa a taxa, maior a variação de preço para a mesma mudança nos juros.
Prazo. O mesmo aumento de dois pontos percentuais derruba o preço de um prefixado de um ano em 1,7% e o de um prefixado de dez anos em 16,1%, no cálculo hipotético com taxa de compra de 13%.
Indexador. Prefixados oscilam mais, seguidos pelos atrelados ao IPCA, como mostra a análise sobre o Tesouro IPCA com maior juro real do ano; pós-fixados ao CDI ou à Selic variam pouco.
Risco de crédito. Em títulos privados, uma piora na percepção sobre o emissor reduz o preço, mesmo que os juros básicos não mudem.
Liquidez. Títulos pouco negociados podem ter preço de venda abaixo da referência, porque o comprador exige desconto.
A ANBIMA publica diariamente preços de referência de mais de 900 títulos, com consulta gratuita no ANBIMA Data. O preço indicativo não é garantia de negócio, e a venda efetiva pode sair acima ou abaixo dele, conforme a demanda do dia.
Quando títulos marcados a mercado não fazem sentido?
Títulos com marcação a mercado relevante não fazem sentido em quatro situações: para a reserva de emergência, para objetivos com data anterior ao vencimento do título, para quem tende a vender ao ver o saldo cair e para carteiras concentradas em uma única taxa de prazo longo.
Reserva de emergência. Dinheiro para imprevistos precisa voltar sem desconto em qualquer momento. A reserva de emergência pede títulos pós-fixados de liquidez diária ou aplicações sem marcação a mercado, e não um prefixado longo.
Objetivo antes do vencimento. Um Tesouro IPCA+ com vencimento em 2045 não combina com a compra de um imóvel daqui a três anos. Se a data do objetivo chega antes do vencimento, o investidor fica exposto ao preço do dia em que precisar vender.
Venda por impulso. O guia sobre como investir a longo prazo mostra por que a disciplina pesa mais do que a taxa em momentos de oscilação. Quem não tolera ver o saldo negativo tende a vender logo depois de uma alta dos juros, realizando a perda que a curva recuperaria.
Concentração em uma taxa longa. Uma carteira apenas com prefixados longos sofre ao mesmo tempo quando os juros sobem. Combinar pós-fixados, atrelados à inflação e prazos escalonados reduz o impacto de cada ciclo, como mostra o guia de carteira de investimentos.
Como a Ável ajuda a lidar com a marcação a mercado?
A Ável ajuda a ler a marcação a mercado pelo ângulo certo: como informação para decidir, não como motivo para vender no susto. Na prática, cada título da sua carteira é associado ao prazo de um objetivo, e, quando o preço oscila, essa variação é interpretada à luz desse prazo. Uma queda no valor de um Tesouro IPCA+ que vence daqui a quinze anos não significa nada para quem vai carregá-lo até lá, e é essa leitura que separa a oscilação temporária do risco real.
Esse acompanhamento faz parte de uma jornada em cinco etapas: diagnóstico, planejamento, orientação, execução e monitoramento. É no planejamento que cada título ganha um objetivo e um prazo, e é no monitoramento que as oscilações passam a ser lidas com esse contexto, em vez de gerarem reação automática.
Por trás disso está a estrutura do Grupo Ável, com cerca de R$ 16 bilhões sob custódia e mais de 40 mil clientes, além de uma mesa de investimentos que faz a curadoria de renda fixa, fundos e títulos privados, comparando prazo, indexador e emissor antes de olhar a taxa. O grupo já levou 26 especialistas ao palco do Brazil Advisor Awards, entre os mais reconhecidos da rede XP.
Na assessoria de investimentos, o profissional orienta a escolha de prazos e indexadores e apresenta alternativas compatíveis com o seu perfil, enquanto a decisão e a execução permanecem com você, na plataforma da XP.
Falar com um especialista é o caminho para entender o que as oscilações da sua renda fixa realmente significam e se os prazos da sua carteira estão alinhados aos seus objetivos.
Perguntas frequentes sobre marcação a mercado
As perguntas abaixo reúnem as dúvidas mais buscadas sobre a oscilação da renda fixa e sobre como acompanhar o preço dos títulos.
Marcação a mercado é prejuízo?
Não necessariamente. A queda no extrato só vira prejuízo se o título for vendido antes do vencimento pelo preço reduzido. Quem mantém o título até o fim recebe a remuneração contratada, segundo a ANBIMA.
O Tesouro Selic tem marcação a mercado?
Tem, mas a oscilação é pequena, porque o título acompanha a taxa básica de juros. O Tesouro Reserva, lançado em 2026, é o título público sem marcação a mercado, conforme o anúncio do Ministério da Fazenda.
CDB tem marcação a mercado?
O CDB pode ser exibido na curva, porque a regra da ANBIMA não alcança títulos bancários. Se for vendido antes do vencimento, porém, o preço segue as condições do mercado no dia. A comparação com o Tesouro está no guia Tesouro Selic ou CDB.
Como ver a marcação a mercado no Tesouro Direto?
O saldo exibido no Tesouro Direto já é o valor a mercado, e a plataforma informa o preço de resgate do dia. As regras do Tesouro Direto preveem resgate antecipado por esse preço, que pode ficar acima ou abaixo do valor aplicado.
A marcação a mercado muda o Imposto de Renda?
Não. O imposto incide sobre o rendimento efetivamente recebido na venda ou no vencimento, pela tabela regressiva da renda fixa. As variações diárias do extrato não geram imposto.
Investidor qualificado pode ver o valor na curva?
Pode. Pela regra da ANBIMA, quem tem mais de R$ 1 milhão em aplicações pode pedir formalmente à instituição para ver apenas o valor na curva. O preço de venda antes do vencimento continua sendo o de mercado.
Por que contar com a Ável para lidar com a marcação a mercado?
Porque a assessoria da Ável associa cada título ao prazo de um objetivo e acompanha as oscilações dentro desse prazo, com uma mesa de investimentos que compara indexador, emissor e liquidez. A casa reúne cerca de R$ 16 bilhões sob custódia.
Este conteúdo tem caráter educativo e não constitui recomendação de investimento. Os exemplos numéricos são hipotéticos e servem apenas para ilustrar o cálculo. Títulos de renda fixa podem apresentar perdas se vendidos antes do vencimento. Fundos de investimento não contam com a garantia do Fundo Garantidor de Créditos. A adequação de qualquer produto depende do seu perfil, dos seus objetivos e do seu horizonte, e deve ser avaliada em processo de suitability com profissional credenciado. Rentabilidade obtida no passado não representa garantia de resultados futuros.







